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segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

POEMAS DA SÉRIE "QUANDO SOU OUTRA COISA" - XVIII.


XVIII.

com linha invisível
ela tece
no banco da praça

debaixo das sete saias de veludo
guarda um passado intacto
(negado?)

vejo de longe
esse álbum de
desmemórias
que ela cose
com o fio
inoxidável 
do silêncio

finjo um olhar
de peixe morto
e ela acusa recebimento

baixa os olhos
sorri sem sorriso

o resto do dia
estarei ocupado
em apagar
seu rosto embaçado
suas lêndeas alvoroçadas
seus pés destroçados
e o peso de tantas roupas
enfiadas umas sobre as outras

ela levanta solene
e me deixa entrever
o manto de mágoas
que sacoleja
e espalha poeira
quando ela caminha
varrendo o chão
com seu fardo
de mil anos

quando me deixará
atravessar a porta
de sua monstruosa
solidão?

sei que ela ama o ínfimo
as agulhas
os carretéis de linhas
e os pássaros que às vezes
pousam em seus ombros

sei que ela carrega um livro
talvez  seu último ato
para perdoar os homens...

celso sisto
18 de janeiro de 2016
(Da série “Quando sou outra coisa”)





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