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domingo, 24 de janeiro de 2016

POEMAS DA SÉRIE "QUANDO SOU OUTRA COISA" - XXIII.


XXIII.

o menino assiste
entusiasmado
à corrida das tatuíras

quer aprender
a morar na areia molhada
a sumir tão rápido 
a apagar vestígios 
a deixar que haja enganos
quando a onda vem
mudando novamente os
endereços e os andares
da casa-corpo

mas logo se sente convidado
a seguir com os pés saltitantes
o cortejo frenético das piabinhas
antecipando o carnaval

depois quer pegar o peixe-foice
até que vê a pena sem o pássaro 
e o pássaro carregando, no bico,
a piabinha sem o cortejo, 
ainda fantasiada de viola

sente a dor
é a mistura 
exagerada
de sal e sol

sente-se liquefeito
mas só descobre-se
filho das águas 
quando o levam embora
quase afogado em lágrimas
e ainda sem poder carregar
o sabonetinho azul 
presente da sereia Janaína

nem o espelhinho
que guardava os raios de sol
só o balde verde-limão nas mãos 
com um resto de mar
para lembrar

ia sim
sem gosto e cheio de sinais
já sabedor de um futuro
em que seria peixe 
e voltaria 
peixe-rei 
para se casar
com a rainha do mar!

celso sisto
23 de janeiro de 2016
(Da série "Quando sou outra coisa")



Um comentário:

clarice disse...

Amo teus poemas!
Cada dia melhor.
Parabéns!