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quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

POEMAS DA SÉRIE "QUANDO SOU OUTRA COISA" - I a XVI



XVI.

o canto era cortante
e eu como um gato
espreitava o pássaro

o canto era de voz cheia
uma lua no amanhecer
serenata para madrugadores

em mim, sobrevivente
de uma náufraga noite
o canto doutrinário
provocava dor

a mesma nota dissonante
mil vezes aguda e insistente
aprofundando o corte

sangrarei mais tarde

agora abro os olhos
para receber
cada carícia do golpe
abro os olhos para ver
claramente o que salta
da ferida

 assim
com as palavras rasgadas
pela inoxidável voz do pássaro
vou retocando a manhã
há um dia inteiro pela frente
e esse canoro sangue
para estancar...

celso sisto
16 de janeiro de 2016
(Da série “Quando sou outra coisa”)





XV.

raiz à mostra
fratura exposta
sulcos na terra
cortaram a árvore!

sem poder mais conter
sua veia poética
o ipê gritou
altissonante:
eutanásia!

uma chuva
de flores roxas
anunciou o velório

só as formigas
disciplinadas
ecoaram
a oração final

verdadeira causa mortis:
o mesmo e invisível
departamento de parques e jardins

fim!

celso sisto
15 de janeiro de 2016

(Da série “Quando sou outra coisa”)





XIV.

nossa senhora dos panos
envolta em andrajos
defende-se dos dias
com um livro nas mãos

os passarinhos cantam
para protegerem a solene fantasia
as cabeleiras frenéticas das árvores
convocam a legião dos cães
para latirem em latim:

dominus dei

santo domínio da linguagem
redentora
que mantém
nossa senhora mendiga
viva
no parque da cidade.

celso sisto
14 de janeiro de 2016
(Da série “Quando sou outra coisa”)










XIII.

mão pequena
mão grande
entrelaçadas

cabe ali todo querer do mundo

borboleta voou
bem-te-vi cantou
paina macia pousou suave
nos finos fios dos cabelos

a outra mão
livre
fez gesto circular de dança

cabe ali toda arte do mundo

mão pequena
mão grande
entrelaçadas
até o fim
pai e filha
saltitantes vozes
melodiosas
segredos sagrados
liturgia de vida

cabe ali todo amor do mundo

amém!


celso sisto

13 de janeiro de 2016


(Da série "Quando sou outra coisa")





XII.

o passado volumoso
atravessou-me
inteiro
o peito escaldante:
não morrerei no presente
morrerei poeta no calor do poente!

celso sisto
12 de janeiro de 2016
(Da série “Quando sou outra coisa”)






Um comentário:

sérgio disse...

Sempre adorei seus versos...um delicado voo.