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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

POEMAS DA SÉRIE "QUANDO SOU OUTRA COISA" - DE XXXII a XXVII


XXXII.

serenata noturna de latidos
sei cada um que gane
e abstenho-me dos gemidos

velhos fantasmas conhecidos
são eleitos
para rasgarem o silêncio
obrigarem a vigília
abrigarem fantasias

as redondezas do corpo e
da nossa rua
são como a palma da mão
e no entanto
as linhas nem sempre
se completam

coragem!
meus cães de longe têm esse tormento:
manter desperto o meu alento

para atravessar a noite é preciso
marcar o caminho
participar do mistério
permitir o sereno
aceitar o rosto orvalhado
desvendar sinfonias
vestir o manto da equidade

coragem!
meus cães de perto sempre dormem
enquanto os outros se agigantam

é assim
para trespassar
essa estrada de escuridões
e degelos
ninguém pode ignorar
que tem presas
na boca...

celso sisto
1 de fevereiro de 2016

(Da série "Quando sou outra coisa")




XXXI.

nunca vi o mar chorar
vi hoje
encrespado encapelado
rugoso descabelado
espumoso

banhistas acudiam
ao mar pranteante
atiravam-lhe flores
elevavam-lhe preces

e o mar bramia imutável
mar impenetrável

talvez lembrasse de caravelas invasoras
embarcações afundadas
barcos fantasmas galeões piratas
navios de guerra submarinos inimigos
corpos estranhos
mundos estranhos

vai tempo vem tempo
e o mar sem querer conversa
obrigou a evasão
a praia estava agora quase deserta

só as crianças resistiam imóveis
enfileiradas na linha da areia
encompridando a distância
entre a alegria e o mar
apesar das caras azedas

até que um riso escapou
e elevou-se no ar
e a onda que ia estourar,
se assustou
recuou
desinchou

mais um riso e outro
depois mais uma onda e outra
voltaram-se sobre si mesmas

as crianças ergueram-se
renascidas do chão

os risos elétricos se espalharam
de ponta a ponta reverberou ecoou escapuliu vibrou tremulou

as crianças entraram no mar abraçadas
beijaram as águas com suas boquinhas de peixe miúdo e nadadeiras curtinhas

e guardaram pra sempre na memória
aquele dia marinho
e a certeza de que só riso
de criança
é que pode dobrar o mar...

celso sisto
31 de janeiro de 2016
( Da série " Quando sou outra coisa")




XXX.

hoje meu poema não olha pra fora
está trancado em seu labirinto
não ouve o anúncio da manhã
não quer saber de asas
não escutou a chuva na janela

hoje esse poema mínimo
quer gritar em swahíli
quer rolar na terra de dentro
lugar solene dos ancestrais
abraçar-se à árvore que sustenta
os pés e enegrecer-se
com a fuligem das mãos

poema cheio de veias
correndo entre canais
aqueduto inteiro de memórias
que já não sabem pra onde ir

poema lasso e frouxo
incapaz de insultos
que bate de leve
na porta do corpo
sem desejar
sequer uma carícia

de tudo e de todo
poema sem insurgência
e para não conformar-me
com a vaga aspereza
grito letras soltas

s p R j f w m M ñ

foi-se o verso escavado
agora posso começar
a despir-me e finalmente
prender a respiração

o poema é mesmo um vão
situado entre o meu nada
e a minha condenação...

celso sisto
30 de janeiro de 2016
(Da série "Quando sou outra coisa")



XXIX.

o pônei esconde os olhos
no chapéu de palha
e a lagarta peluda tropeça
no meu pé esquerdo

ofertas de um dia de mar

de imediato
desejo um Pequeno Polegar
para o pequeno cavalo
com flores na cabeça
e um bolso escuro
para a lagarta sestrosa
com seu casaco parisiense

mas desejo também
que a vida fique estancada
que a respiração serene

esse dia de sol
não cabe em mim

e sigo caminhando
fantasmamente
pela areia
alheio
aos meus versos

talvez
seja devorado
por um caranguejo
talvez
me abrigue
em posição de lótus
entre aquelas
duas velhinhas
inchadas de tempo

tanto talvez
tanto tanto

nem percebo
o bando de quero-queros

como eles
quero equilibrar-me
sobre meus pés
como se em cima das pedras
correndo dos respingos
temperados de sal

é perdão o que necessito agora
se a via da linguagem
continua operando em mim
quando não trouxe o buril
das palavras

mesmo que eu não esteja
cabendo nesse dia de sol e mar...

mesmo que hoje
minha vontade
seja sobrar

soçobrar...

celso sisto
29 de janeiro de 2016
(Da série "Quando sou outra coisa")



XXVIII.

o corpo na horizontal
escasso de vitalidade
e aquele olhar robusto
visitando-me os labirintos

jeito de amar pra sempre
montanhoso e abrupto
e ainda assim tão doce

deito ao teu lado
e a criança transborda
e escapole pelas quatro patas
tuas palavras são latidos
não importa
tua cantiga é de roda
e teu abraço é uma franca lambida

dialogamos: a mão que afaga
o pelo que cede sedoso
a tantos mundos subcutâneos

uma espécie de batismo
de bálsamo
de transbordamento do mar
quando não pode mais conter
a necessidade da onda

nunca estamos preparados
mas sabemos que há a tua hora
e o silêncio que virá

ultimamos a vida
com sorrisos que choram.

celso sisto
28 de janeiro
(Da série " Quando sou outra coisa")



XXVII.


paisagem estampada na cara
aprendida de eras glaciais
impermeável à vida

um mastim raivoso pula dos teus olhos
abocanha justo o meu peito

não aceito a provocação
não abro a boca
e espero
poeticamente
que a fera te abandone

sabemos
um naco de beleza
na carne da palavra
pode até curar...

então, faço-me livro...

celso sisto
27 de janeiro de 2016
(Da série “Quando sou outra coisa”)



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